
Às vezes sabemos exatamente o que deveríamos fazer.
O que precisa mudar.
Mas admitir isso para si mesmo exige abandonar a ilusão e a fantasia que criamos para não encarar a dor do que é.
Viver implica uma sensação ambígua e constante, entre a frustração e a satisfação.
Essa tensão se intensifica de acordo com a personalidade de cada um.
Cada pessoa acaba encontrando alguma forma de fuga, de si mesma, do tédio, da dor, do outro.
Vivemos nos distraindo, buscando pequenas anestesias para aquilo que não conseguimos elaborar por dentro.
Tenho pensado muito sobre as relações.
Sobre as pessoas que passam pela nossa vida e aquelas que nos atravessam.
As que despertam desejo, fantasia, intensidade.
Nem todas ficam.
Mas todas ensinam.
Em minha última análise, refleti sobre os relacionamentos que tive e sobre as pessoas com quem me conectei.
Sobre o quanto de cada uma ainda permanece em mim, gestos, marcas, modos de sentir, partes que não foram embora quando a relação acabou.
Há encontros que são quase impossíveis de sustentar na realidade justamente porque são intensos demais.
Como se a vida concreta não comportasse tudo o que foi sentido.
O mais difícil vem depois.
O vazio que fica após a entrega absoluta.
A sensação de perda não apenas do outro, mas de tudo o que poderia ter sido.
Da idealização de uma outra vida que não esta.
Como voltar para a realidade depois de uma imersão tão profunda no outro e em nós mesmos?
Como seguir vivendo a vida comum e rotineira quando algo dentro ainda está em luto pelo que nunca existiu?
Talvez não se volte inteiro de uma vez.
Volta-se aos poucos.
Com dias em que a saudade ainda invade,
outros em que o corpo reaprende o comum,
e alguns em que a vida, discretamente, volta a caber.
Algumas coisas não passam, apenas encontram outro lugar dentro da gente.
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