Às vezes sabemos exatamente o que deveríamos fazer. O que precisa mudar. Mas admitir isso para si mesmo exige abandonar a ilusão e a fantasia que criamos para não encarar a dor do que é. Viver implica uma sensação ambígua e constante, entre a frustração e a satisfação. Essa tensão se intensifica de acordo com a personalidade de cada um. Cada pessoa acaba encontrando alguma forma de fuga, de si mesma, do tédio, da dor, do outro. Vivemos nos distraindo, buscando pequenas anestesias para aquilo que não conseguimos elaborar por dentro. Tenho pensado muito sobre as relações. Sobre as pessoas que passam pela nossa vida e aquelas que nos atravessam. As que despertam desejo, fantasia, intensidade. Nem todas ficam. Mas todas ensinam. Em minha última análise, refleti sobre os relacionamentos que tive e sobre as pessoas com quem me conectei. Sobre o quanto de cada uma ainda permanece em mim, gestos, marcas, modos de sentir, partes que não foram embora quando a relação acabou. Há encontros que s...
Olhando para as minhas cicatrizes de quando caí de moto, e também para minhas tatuagens, manchas, pintas e sardas, refleti sobre o quanto é bonito um corpo que carrega marcas. Marcas que não são apenas pessoais, mas que também carregam ancestralidade, memória e pertencimento. Fomos educados a pensar exatamente o contrário, sob uma crença perfeccionista que associa valor à lisura da pele, como se a vida ideal fosse uma linha reta, sem desvios, quedas ou interrupções. Como se as experiências não nos atravessassem. Como se não deixassem vestígios. Mas tudo tem história. Um corpo, um objeto, uma fotografia, um momento. Nada existe sem ter sido tocado pelo tempo. As marcas não são falhas no percurso, são registros de passagem. Elas dizem que houve movimento, risco, encontro com o real. Negá-las é sustentar a ilusão de uma existência asséptica, onde nada dói, nada transforma, nada exige reconstrução. Talvez o convite seja mudar o olhar. Ampliar a perspectiva. Reconhecer que há inúm...