
Olhando para as minhas cicatrizes de quando caí de moto, e também para minhas tatuagens, manchas, pintas e sardas, refleti sobre o quanto é bonito um corpo que carrega marcas. Marcas que não são apenas pessoais, mas que também carregam ancestralidade, memória e pertencimento. Fomos educados a pensar exatamente o contrário, sob uma crença perfeccionista que associa valor à lisura da pele, como se a vida ideal fosse uma linha reta, sem desvios, quedas ou interrupções. Como se as experiências não nos atravessassem. Como se não deixassem vestígios.
Mas tudo tem história.
Um corpo, um objeto, uma fotografia, um momento.
Nada existe sem ter sido tocado pelo tempo.
As marcas não são falhas no percurso, são registros de passagem. Elas dizem que houve movimento, risco, encontro com o real. Negá-las é sustentar a ilusão de uma existência asséptica, onde nada dói, nada transforma, nada exige reconstrução.
Talvez o convite seja mudar o olhar. Ampliar a perspectiva. Reconhecer que há inúmeras formas de existir apesar, e também por causa, do que nos acontece. Nem todas as experiências nos quebram, muitas nos redesenham.
Cabe a nós escolher de que modo habitaremos aquilo que nos marcou. E, entre todas as possibilidades, talvez a mais potente seja aquela que desperta em nós o ímpeto silencioso e contínuo de sermos melhores, não mais perfeitos, mas mais inteiros.
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