Pular para o conteúdo principal

A arte de sentir e deixar ir

Meu filme preferido sempre foi Comer, Rezar e Amar. Assisti quando tinha 16 anos e agora, quase duas décadas depois, estou lendo o livro. Eu acredito muito na ideia de que algumas coisas chegam até nós exatamente no momento em que precisamos delas. Tudo depende da consciência que temos para compreender determinada experiência. Talvez a vida seja mesmo como um videogame: precisamos passar de fases, aprender certas lições e amadurecer para acessar novos níveis de consciência.


Eu me identifico muito com a protagonista e autora, Elizabeth Gilbert. Ela é intensa, curiosa, profunda, sente as coisas de uma maneira que me toca. Sempre enxerguei meus vínculos como algo que vai além de simples relacionamentos; são conexões profundas, quase difíceis de explicar.


Uma parte do livro que me fez refletir profundamente é quando ela está na Índia, tentando meditar, mas não consegue parar de pensar no homem por quem era apaixonada e no casamento que não deu certo. Em uma conversa com um colega, ela diz que sofre porque acredita que aquele homem era sua alma gêmea.


Ela diz que não consegue meditar porque não consegue parar de pensar nele.


Então ele responde:


“Então pense.”


Ela retruca:


“Mas eu sinto saudade.”


E ele responde:


“Então sinta saudade. E toda vez que pensar nele, mande luz e amor.”


Essa passagem me atravessou porque tenho pensado muito sobre a nossa necessidade de controlar aquilo que sentimos, ao invés de simplesmente permitir que a emoção exista. Talvez o desafio não seja não sentir, mas não fazer da dor uma morada, não transformar a saudade na nossa própria caverna de Platão, presos à sombra daquilo que poderia ter sido e incapazes de enxergar aquilo que realmente foi.


Será que sofremos pela perda em si ou pela impossibilidade de controlar a perda? Por que a ausência do objeto de desejo causa tanta angústia? Será que não poderíamos simplesmente sentir e seguir?


Muitas vezes nos apegamos à ideia de que o outro irá aliviar nossas feridas infantis, preencher nossos vazios, nos salvar da solidão, da angústia ou do sofrimento. Criamos uma fantasia de que aquele amor será a resposta para aquilo que carregamos dentro de nós. Mas quando a fantasia se encontra com a realidade, ela muitas vezes não se sustenta.


O mesmo colega dela diz que certos amores não vêm para permanecer conosco, mas para nos mostrar algo que precisamos olhar e curar.


Tenho sentido mais do que demonstro e me pego constantemente refletindo sobre meus padrões de vínculo e de relacionamento. Dói quando nos apaixonamos por alguém e essa pessoa não permanece na nossa vida. Mas talvez nem todos os amores tenham vindo para durar. Alguns vieram para despertar algo, nos ensinar algo ou nos transformar.


Talvez a maturidade emocional esteja justamente nisso: permitir que o amor exista sem a necessidade de possuí-lo. Permitir que a saudade nos visite sem construir uma casa dentro dela.


Mas como seria simplesmente sentir e deixar ir?


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desejo, encontros, desencontros e o que permanece.

​ Às vezes sabemos exatamente o que deveríamos fazer. O que precisa mudar. Mas admitir isso para si mesmo exige abandonar a ilusão e a fantasia que criamos para não encarar a dor do que é. Viver implica uma sensação ambígua e constante, entre a frustração e a satisfação. Essa tensão se intensifica de acordo com a personalidade de cada um. Cada pessoa acaba encontrando alguma forma de fuga, de si mesma, do tédio, da dor, do outro. Vivemos nos distraindo, buscando pequenas anestesias para aquilo que não conseguimos elaborar por dentro. Tenho pensado muito sobre as relações. Sobre as pessoas que passam pela nossa vida e aquelas que nos atravessam. As que despertam desejo, fantasia, intensidade. Nem todas ficam. Mas todas ensinam. Em minha última análise, refleti sobre os relacionamentos que tive e sobre as pessoas com quem me conectei. Sobre o quanto de cada uma ainda permanece em mim, gestos, marcas, modos de sentir, partes que não foram embora quando a relação acabou. Há encontros que s...

A necessidade de sentir demais

Vivo numa linha tênue entre instabilidade emocional e uma tentativa meio frustrada de ser… normal. Sempre fui intensa. Dramática. Uma montanha russa que nunca desliga. Como se viver como se não houvesse amanhã ainda não fosse suficiente. Como se a própria vida, por si só, também não fosse. Nunca consegui gostar da ideia de uma rotina comum. Sempre precisei de mais, mais emoção, mais estímulo, mais alguma coisa que eu nem sei nomear direito. E aí, quando não tem, eu crio. Alimento a ansiedade da existência ou fujo do tédio com distrações que, quase sem perceber, viram pequenas obsessões. O curioso é que eu sei. Sei exatamente o padrão. Sei que é problemático. Sei o quanto isso se repete. Mas também sei que isso me faz sentir viva. E, de alguma forma, sempre vira material. Ultimamente tenho observado mais do que sentido. Estudado as relações, os comportamentos, essa tentativa coletiva de parecer bem. Mas ninguém parece estar bem. E se ninguém está bem consigo mesmo, sem saber se susten...

Tudo deixa marcas: às vezes no corpo, às vezes na alma.

​ Olhando para as minhas cicatrizes de quando caí de moto, e também para minhas tatuagens, manchas, pintas e sardas, refleti sobre o quanto é bonito um corpo que carrega marcas. Marcas que não são apenas pessoais, mas que também carregam ancestralidade, memória e pertencimento. Fomos educados a pensar exatamente o contrário, sob uma crença perfeccionista que associa valor à lisura da pele, como se a vida ideal fosse uma linha reta, sem desvios, quedas ou interrupções. Como se as experiências não nos atravessassem. Como se não deixassem vestígios. Mas tudo tem história. Um corpo, um objeto, uma fotografia, um momento. Nada existe sem ter sido tocado pelo tempo. As marcas não são falhas no percurso, são registros de passagem. Elas dizem que houve movimento, risco, encontro com o real. Negá-las é sustentar a ilusão de uma existência asséptica, onde nada dói, nada transforma, nada exige reconstrução. Talvez o convite seja mudar o olhar. Ampliar a perspectiva. Reconhecer que há inúm...