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Quando a razão já não é suficiente

Terminei o livro que estava lendo e tive ainda mais certeza de que o universo, em sua sabedoria, nos ampara e nos envia sinais, intuições e insights para nos mostrar caminhos.

Quando eu tinha entre 25 e 27 anos, estava vivendo um momento muito difícil emocionalmente. Na verdade, minha vida parece uma linha tênue entre momentos difíceis, crises existenciais e recomeços.

Lembro de estar profundamente insatisfeita com a minha vida e comigo mesma. Eu era extremamente negativa, estava dominada pelo ego e parecia incapaz de enxergar qualquer possibilidade diferente.

Até que um dia entrei em um sebo e encontrei um livro que mudou minha vida.

Ontem, enquanto fazia uma pesquisa, li um trecho que dizia que o plano espiritual pode se comunicar conosco por meio de sincronicidades, pessoas, intuições e livros.

Talvez essas mensagens estejam sempre ao nosso redor, mas nossa percepção depende do nível de consciência em que estamos. Podemos reconhecê-las ou ignorá-las. A escolha depende também do quanto estamos dispostos a subir mais um nível nesse estranho jogo da vida.

O livro que encontrei naquele sebo era budista.

Como pesquisadora e curiosa que sou, já frequentei, estudei ou tive contato com diferentes religiões e tradições espirituais. Sempre estive em busca de alguma coisa que fizesse sentido para mim.

Eu sou uma pessoa que precisa de sentido.

Busco significados. Flerto com o místico, com o desconhecido, com as possibilidades que estão além daquilo que consideramos comum ou inteiramente real.

Durante muito tempo, busquei quase de forma desesperada e obsessiva algum sentido para a minha existência. Algo parecido com transcendência. Talvez o Nirvana. Talvez apenas uma forma de me sentir menos perdida dentro da vida.

Passei por cursos de Reiki, mapas astrais, cabala, numerologia, Umbanda e cristianismo. Em meio a tantas buscas, encontrei na filosofia budista uma visão coerente com aquilo que penso sobre a vida, o ser humano e a existência.

A mensagem daquele livro era:

“Tudo o que me acontece é o melhor que poderia acontecer.”

Hoje, entendo essa frase de uma forma menos literal. Nem tudo o que nos acontece é bom, justo ou necessário. Algumas experiências são profundamente dolorosas. Mas talvez possamos transformar a forma como nos relacionamos com aquilo que aconteceu.

Naquele momento, porém, foi como se uma chave tivesse virado. Minha perspectiva mudou e, junto com ela, a minha vida também começou a mudar.

Depois de alguns momentos de verdade e conexão, eu me perdi novamente.

Perdi-me em sentimentos não elaborados, traumas ainda não ressignificados, pensamentos desenfreados e em um ego ferido, tentando se proteger de tudo.

Fiquei cética. Parei de acreditar. Afastei-me da espiritualidade. Tornei-me racional demais, vazia de fé e cada vez mais distante de uma parte sensível e intuitiva de mim mesma.

Segui assim por muito tempo.

Até agora.

Espero que isso não soe como fantasia ou pretensão. Acredito que todos nós possuímos algum nível de sensibilidade, embora algumas pessoas percebam ou desenvolvam isso de forma mais intensa.

Desde criança, sinto com muita força as emoções e sensações dos outros. Tenho intuições, percebo mudanças de energia e, muitas vezes, consigo compreender o que alguém está sentindo antes mesmo que essa pessoa diga alguma coisa.

Sempre acreditei em energia, mesmo nos períodos em que parei de acreditar em quase todo o resto.

Quando comecei a fazer terapia e a estudar psicologia, passei a questionar essa sensibilidade. Pensei que talvez tudo fosse apenas projeção de traumas, repetição de padrões ou algum mecanismo psicológico que eu ainda não compreendia.

Talvez parte seja.

Mas talvez não seja apenas isso.

Neste ano, depois de muita instabilidade emocional, crises existenciais, vazio, angústia e períodos depressivos e ansiosos, outro livro chegou até mim.

E, mais uma vez, tive aquela sensação de saber o que precisava fazer.

Então comecei a rezar.

Comecei a trabalhar novamente a minha espiritualidade.

Não abandonei a terapia, porque compreendo que uma coisa não anula a outra. Psicologia e espiritualidade podem coexistir. Ambas podem ser necessárias em nosso processo de compreensão, transformação e evolução.

A terapia me ajuda a compreender minhas feridas, meus padrões, minhas defesas e minhas repetições. A espiritualidade me ajuda a encontrar sentido, presença, conexão e uma forma diferente de atravessar aquilo que não consigo controlar.

Não sigo nenhuma religião cegamente e não acredito que precise fazer isso. Continuo próxima da filosofia budista, das tradições e dos ensinamentos do yoga, mas hoje compreendo que religião e espiritualidade são coisas diferentes.

Depois de atravessar uma história familiar difícil, perdas, relações dolorosas, compulsões, vícios ao meu redor, períodos de depressão, ansiedade e tantas experiências que me transformaram, percebo que vivi bastante coisa.

Não digo isso como uma forma de vitimismo. Não gosto de me colocar nesse lugar, porque sinto que ele pode retirar de mim a responsabilidade, o poder de escolha e a possibilidade de mudança.

Digo isso a partir da experiência.

Talvez até de alguma forma de superação.

E hoje, falando como alguém com mais de 30 anos, depois de ter vivido, perdido, compreendido, buscado e aprendido tantas coisas, existe algo que eu diria a quem estiver atravessando um momento de angústia ou desespero:

Além de fazer terapia, reze.

Entre em contato com aquilo que você considera sagrado.

Converse com essa energia universal que atravessa e sustenta a vida.

Peça sinais. Peça orientação. Peça sabedoria.

Abra o coração.

Permita-se sentir o amor passando através de você.

Sinta a paz, a dor, a tristeza e tudo aquilo que existir naquele momento.

Crie rituais. Tenha momentos de encontro com o sagrado que habita as coisas.

Sente-se no chão.

Respire.

Observe.

Sinta.

Abençoe tudo aquilo que surgir, seja bom ou ruim.

Sinta, abençoe e depois permita que passe.

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